R: Estás a pensar em quê?
M: Em nada. Mentira.
R: Estás triste?
Pausa.
M: Olha-os ali... Estão felizes, não estão? Brilho.
R: Sim... Suspiro.
M: O que tens?
R: Nada. Estou cansado. Mentira.
M: Logo, ligo-te a perguntar.
M: O que tinhas?
R: É o vazio que sinto em relação ao amor, M.
M: E será que precisas de estar cheio disso?
R: Sim...
M: Não sabes no que te queres meter.
segunda-feira, janeiro 11, 2010
domingo, janeiro 10, 2010
O que tu já devias saber. E eu também.
E atenção às palavras. Essas andam de mão dada com a farsa e caem nesse abismo que nos tira o fôlego que é a ambiguidade, os males-entendidos. Esta é importante: cuidado com as palavras. Há as que são muito pesadas, deixa-as para quem as conseguir carregar.
Sempre.
Quero-te.
Nunca.
Amor.
Vê como são grandes. À sua imagem, a desilusão vem sempre em ponto catastrófico. Vê-te pequeno, nelas. Procura saber, no mais íntimo de ti, se as queres mesmo dizer. Se as sentes, de certeza.
E não te esqueças da relatividade das certezas. Hoje estou convicta disto, talvez amanhã já não esteja assim tanto.
domingo, janeiro 03, 2010
Voltar atrás.
A viagem foi dolorosamente longa. A cada vagar pude imaginar-te esperando-me. A cada vagar pude temer que não o fizesses. Quando o comboio finalmente estagna, multidões precipitam-se para as suas bagagens. Evacuam à medida que abrem as portas de saída e inundam a estação de passos. Casacos compridos, guardas-chuvas a um estalido de se abrirem como janelas em dias de verão quente. Chove lá fora, quase torrencialmente. Permaneço sentada, escuto a chuva. Não sei se me esperas ou porque receio tanto saber. Alguém que me avisa que tenho de sair aqui e dou por mim a achar a viagem dolorosamente curta. Agora não tenho tempo para voltar atrás, o comboio estagnara de repente. A porta de saída está aberta e os meus passos mal se ouvem com o temporal que faz lá fora. Cá fora receio não te encontrar nas multidões que povoam a estação. Temo não te reconhecer. Estou atrapalhada, seguro a mala com as duas mãos. Presta atenção aos sinais - estou atrapalhada e por isso pego na mala com as duas mãos.
Vejo-te.
És inconfundivelmente tu. O teu ar nórdico, quase cru, a tua boca pouco modesta. Bonita, a tua boca. É inconfundivelmente a tua.
Avanço na tua direcção.
Perto de ti, aproximo o meu rosto do teu. A minha testa está perto da tua. O meu nariz, distraído, toca no teu. Os meus lábios, entreabertos, pairam próximos dos teus. Inconfundiveis, os teus lábios. Não há saudações, só a minha mão que segura a tua nuca, os meus olhos que se fecham. Quero sentir o teu cheiro, não digas nada. Presta atenção aos sinais - quero ficar aqui.
Largo a mala e o chão queixa-se num estrondo ignorado. Quero segurar-te com quantas mãos tiver o meu coração, sentir-te o peito, ter-te de olhos fechados. És tu. Estás comigo. Estou aqui. É verdade, é inconfundivelmente real.
Acordo.
Chove torrencialmente na minha janela, ou perto disso. O peito está acelerado, mãos que procuram um sossego ignorado, perdido. Não sei o que sonhei, mas sei que foi contigo. Foi inconfundivelmente contigo - foi o balbuciar do teu nome que me acordou, ainda me enchem o céu da boca as tuas iniciais, e os meus lábios sabem à tua língua. Mordo-os, levemente - Bom dia, meu querido.
segunda-feira, dezembro 28, 2009
Quero sempre o mais difícil.
É mais fácil escrever quando temos uma história para contar, um episódio para recordar ou apenas um misto de raiva e dúvida a fervilhar no peito. Não tenho nada. Também é mais fácil escrever quando nos sentimos vazios de tudo e todos, um ponto branco perdido numa imensidão negra. Não tenho nada, não sou é pessoa de escrever sobre coisas felizes, parece-me. Escrevo-as e não me parecem estar bem estruturadas apesar de sintáctica e morfologicamente concordantes.
Queria descrever a forma como me sinto, sem hesitar, estou bem! Mas não estou. Se estivesse não estaria a desenhar pontos de interrogação sobre todos os meus sorrisos, sobre esta minha felicidade e falta de inspiração para a escrita. Queria que os meus dedos em vez de vida tivessem magia para me fazer saltar no tempo. Queria parar de pensar em ti e achar que os erros foram todos meus.
Um bem haja aos amigos que nos querem sempre dar a provar doces. Tenho um que me quer fazer acreditar que não sou uma pessoa complicada - vejam bem! - porque jura a pés juntos que eu só tenho uma forma completa de me expressar. Talvez. Talvez mais do que completa seja complexa.
E como estou a escrever todo este mar de sentimentos, assim de repente, apercebo-me de que ponho dúvidas e desejos em todos os parágrafos. Sou difícil. Mais uma vez, sou assim.
sexta-feira, dezembro 25, 2009
O amor é tramado.
A história de amor do meu avô é uma história deveras banal. Um funcionário das finanças, pelo seu vigésimo aniversário, conhece professora regente que foi, já não sabe a mando de quem, pedir meia folha selada. Na altura os carimbos figuravam nas pontas do papel que seria, então, cortado, a meio. Teria então a professora regente de Felgueiras, que viria a ser muitos anos depois minha avó, o seu meio papel selado, não fosse o meu avô, um funcionário de finanças, um charlatão. Galanteou-a com a subtileza de um mestre de esgrima, deu-lhe a mão com a seriedade de uma raposa. Na altura, explicou-me o meu avô, era deprimente para um jovem rapaz, na casa dos seus vinte e um, andar com uma mulher que fosse, vá, desfazada. Diz-me ele, hoje, que desfazada queria então dizer mulher-que-anda-com-uns-quantos. O que hoje tão vulgarmente se chama de nomes mais sujos, mais cheios e ilustrativos, era então disfarçado com meia dúzia de sílabas díficeis. A minha avó não era uma senhora dessas, gaba-se o meu avô, enquanto me conta a sua história de amor. Recomeça muitas vezes, às vezes o meu avô esquece-se de contar coisas importantes e volta ao ponto de partida para que perceba a sua história, deveras banal. Um funcionário das finanças, que viria a ser meu avô, apaixona-se pela professora regente da freguesia, então sem tenções de ser avó, num casual encontro já não se sabe a mando de que abençoada alma. A meia folha selada foi o pretexto para mais encontros. A minha avó usou tantas desculpas tantas quantas pôde para ir às finanças, diz o meu avô, gabando-se, que quantas vezes ela fora comprar papéis sem qualquer importância. Queixa-se a minha avó que na altura muito trabalhou para ter escudos para esses papéis, de muita importância!, exclama desculpando-se. Interrompe muitas vezes o meu avô, gesticula muito que essas histórias não interessam, que estás a maçar a miúda, João. O avô faz ouvidos de mercador, chega-se mais para perto de mim, continua a explicar-me como já conhecia a irmã da minha avó sem saber. Parece que ela trabalhava no mesmo edificio, na contabilidade, sussurra-me que era uma depravada. Parece que, naquele tempo, depravada tinha o mesmo significado que tem nos dias de correm:
- Vê lá tu que foi dizer à tua avó que me namorava!
- E namoravam?
- Não! Ela é tola.. já o era, na altura.
Rio-me baixinho, é quase um sorriso tremido. O meu avô cerra muito os seus olhos azuis para me dizer que sou afortunada por não herdar a toléria do lado paterno. Conta-me como agarrou a mais bonita das irmãs, minha avó, com o seu jeito de esgrima e raposa.
- Tinha muitas mulheres atrás de mim!
- Bonitas, 'Vô?
Sorri um sorriso malicioso, foca um ponto no espaço que não vejo. Não está mais comigo na sala, parece espairecer para outro tempo. Um onde muitas mulheres o perseguem, clamando aos seus olhos muito azuis que são filhas de patrões e donas de muitas terras. A pergunta paira no ar, a minha avó chama-me ao telefone. É a tal tia, tola depravada sua irmã, que me pergunta se já tenho noivo em vista. Respondo, educadamente, que não senhora, ainda não me caso este ano. Talvez para o próximo. O meu avô, no sofá, regressou à sala, muitos anos mais velho e sem garotas suas seguidoras, gesticula mudo que a mulher é tola. Já o era, no tempo em que se apaixonou pela minha avó. Diz o meu avô que então para se casar foi tramado. Gosto da maneira como pronuncia palavras às quais não está muito habituado. Tramado é uma delas, coisa de gente nova que ouve nas bocas dos filhos, nas bocas dos netos e do senhor Jorge do quiosque da frente, quando quer falar do seu Sporting. Carrega nas sílabas, como se não se quisesse enganar:
- Casar com a tua avó foi tra-ma-do.
Explica-me porquê. Ao que parece o pai da minha avó era um senhor de poder e nome, nascera num berço de ouro mas nada dera a nenhum dos seus. Exigia pouco de si, mas demandava a todos o céu e os mares. Imaginava as suas doze filhas noivas de humildes farmacêuticos, doutores cujo tratamento nunca fosse abaixo do Vossa Excelência. Pois nem a minha avó, sua filha, era excepção, nem o meu avô, então funcionário das finanças, a nenhum dos requesitos bastava.
- Escrevi muito à tua avó - relata com orgulho - mas chegou o dia de enfrentar o pai dela.
Na minha cabeça fértil, terei herdado um pouco da toléria paterna, vejo o meu avô altissimo e envergando uma espada, descendo de um cavalo soberbo. Leva a mão ao peito de cada vez que diz o nome da minha avó ao esperado sogro e promete conquistas de terras estrangeiras e bom vinho em troca da sua mão. Mas como a história de amor do meu avô foi uma história deveras banal, parece que tudo ficou arranjado num jantar a três. Coisa moderna, das que se ouvem na boca de filhos, na boca de netos e na da D. Ana da farmácia, quando quer dizer que a sua Júlia lhe apresentou o namoro.
- Quero casar com o João, pai.
Tratarem-se pelo nome próprio é a prova inusitada que, noutro tempo, tiveram intimidade para carinhos mais próprios, mais seus. Gaba-se o avô que sim, que tinham tratos carinhosos. Vai a dizer quais mas a avó interrompe, que a miúda não precisa de saber tanto, gesticula muito e cora mais ainda.
Rio um sorriso tremido, comovido. Não acho a sua história banal. É de amor - no fundo, nunca o poderia ser.
Querido Pai Natal.
domingo, dezembro 20, 2009
Até amanhã.
A medo, olho o céu escuro. Daqui não se vêm as estrelas e respiro fundo. Tanto melhor, é da maneira que não te vejo nelas, no mistério do seu brilho e na distância que as separa dos meus olhos. Quase a mesma que afasta o meu corpo do teu, ou assim eu a concebo. Misteriosa, maldita e escura distância. Enquanto não houver estrelas não saberás de que cor são os meus olhos e enquanto for escuro não poderás ver como fico elegante de vermelho e negro. Terás, então, de acreditar que o sou porque to digo, de vermelho e negro. Ver-te-ás obrigado a crer nas palavras graves que nunca ouviste da minha boca. A minha boca é pequena, sem o saberes, mas o meu sorriso não se contém. Porque não me podes ver - hoje não há estrelas - gostava que me quisesses ouvir. A minha voz é grave - e não o sabes. Desconheces como eu, quando rouca, afundo as consoantes num timbre quase inaudível, um baque quente de sussurros, em vogais mudas e afogadas aos meus lábios. Cego, desenha com o teu dedo os meus lábios. Presta cuidado, a minha boca é pequena. Lança agora o esboço da tua alma às estrelas, talvez elas voltem amanhã. Poderás então mergulhar nos meus olhos cor de avelã e afogar-te com as palavras. E a minha voz, talvez amanhã, valer-te-á mais que qualquer vogal lida. Esquecer-te-às de qualquer sentido que não a visão, que me contemplará, cativa. O meu corpo encontrará o teu, a medo, como o meu olhar se há-de encontrar com as estrelas. Ser-te-ei mais que a lua, e talvez amanhã. Por hoje, que te beije ela de boa noite. Não sei - cega - como é a tua boca. Misteriosa, maldita e escura distância.
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Foi a minha carta de Natal, tu sabes.
Se algum dia alguém te perguntar se já recebeste uma carta de amor diz-lhes que sim. Se algum dia alguém se queixar do romantismo moderno, nada romântico, diz-lhes que estão enganados – tu és amado, à antiga. Para Sempre. Pena Para Sempre não ser sinónimo de ainda saber ler as tuas mãos e ver a nossa felicidade. Pena Para Sempre não ser sinónimo de te continuar a ouvir entoar melodias ao meu ouvido. Pena Para Sempre não ter um sentido literal.
O que te dou é teu. Não to tiro, não o quero de volta mas não posso deixar de duvidar e de duvidar cada vez mais. Se pensas, ou alguma vez pensaste, que só gosto de ti quando és doce como o mel ou quente como o Verão, enganas-te. Gosto de ti por completo, em qualquer estação do ano. Apesar disso, mudaste. Mudei, também, com certeza. Mudámos - quem sabe? – e deixámos em pausa o filme em que éramos personagens que davam, pediam, acreditavam, recebiam e faziam promessas. Não peço (mais) nada, já disse, mas é Natal e todas as crianças pedem algo ao Pai Natal. Hoje, também sou criança e peço-lhe que te traga de volta ou que te diga, durante um sonho, que só preciso dos teus sorrisos. Sou criança e peço às estrelas que te desenhem, que desenhem o nosso amor junto à lua.
Quando não te desenho um sorriso nos meus lábios, sorrio-te com os olhos. Quando te sorrio com os olhos, falo-te com os ouvidos. Já não há palavras que me valham. Não há um idioma que seja o meu, um pelo qual me consigo expressar. Como se diz “As minhas saudades tuas matam-me”, na tua língua? Tento agarrar o teu braço para que o teu cheiro se espalhe em mim, tento andar perto de ti para que os teus passos, maiores que os meus, apanhem os meus pés. Eu... (...) O que falta é nosso.
O que te dou é teu. Não to tiro, não o quero de volta mas não posso deixar de duvidar e de duvidar cada vez mais. Se pensas, ou alguma vez pensaste, que só gosto de ti quando és doce como o mel ou quente como o Verão, enganas-te. Gosto de ti por completo, em qualquer estação do ano. Apesar disso, mudaste. Mudei, também, com certeza. Mudámos - quem sabe? – e deixámos em pausa o filme em que éramos personagens que davam, pediam, acreditavam, recebiam e faziam promessas. Não peço (mais) nada, já disse, mas é Natal e todas as crianças pedem algo ao Pai Natal. Hoje, também sou criança e peço-lhe que te traga de volta ou que te diga, durante um sonho, que só preciso dos teus sorrisos. Sou criança e peço às estrelas que te desenhem, que desenhem o nosso amor junto à lua.
Quando não te desenho um sorriso nos meus lábios, sorrio-te com os olhos. Quando te sorrio com os olhos, falo-te com os ouvidos. Já não há palavras que me valham. Não há um idioma que seja o meu, um pelo qual me consigo expressar. Como se diz “As minhas saudades tuas matam-me”, na tua língua? Tento agarrar o teu braço para que o teu cheiro se espalhe em mim, tento andar perto de ti para que os teus passos, maiores que os meus, apanhem os meus pés. Eu... (...) O que falta é nosso.
domingo, dezembro 13, 2009
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